Investigado por corrupção no Detran é solto; réu ficou dois anos foragido e apenas cinco meses preso

Investiga Ms Wendell Reis


Investigado por liderar um esquema de corrupção no Departamento Estadual de Trânsito, David Cloky Hoffman Chita, foi solto pela justiça. Ele ficou preso por cinco meses, após passar mais de dois anos foragido da justiça. 

A juíza Eucelia Moreira Cassal determinou que David Cloky  use tornozeleira por 180 dais. Ele também está proibido de frequentar o prédio do Detran ou manter contato com investigados no caso. 

David estava preso desde dezembro do ano passado, quando foi localizado pelo Garras na própria residência, em Campo grande, após ficar foragido por, aproximadamente, dois anos. 

A reportagem divulgou, com exclusividade, que David teria aberto outra frente de “trabalhos” no departamento de trânsito, em um esquema que o despachante teria começado a operar usando uma servidora que, ironicamente, trabalhou na Corregedoria do órgão.

Chita já foi investigado na Operação 4 eixo e na Operação Vostok, famosa por a partir de uma delação dos irmaos Batista, da JBS, ter apontado um sofisticado esquema de corrupção no Estado. Na ocasião, Chita seria responsável por roubar uma propina de R$ 300 mil a serem pagas ao pecuarista José Ricardo Guitti Guimaro, o Polaco, e que acabou descoberta.

Em 2023, ele foi um dos alvos da operação para  desmantelar esquema de fraude na regularização de caminhões no Detran, mas ao que indica as investigações, não foram o bastante para intimidá-lo, já que ele iniciou outro modo de ganhar dinheiro ilicitamente.

O novo esquema foi denunciado após um boletim de ocorrência registrado por um servidor, denunciando irregularidades na liberação e restrições administrativas de veículos no sistema de informações do Detran. A suspeita inicial surgiu quando o comunicante, que estava respondendo pela Direção da DIRVE, recebeu um telefonema de um advogado, que agradeceu pela remoção de uma restrição veicular. O servidor negou ter realizado tal ação, causando-lhe estranheza, pois estava acompanhando o trâmite de um pedido protocolado pelo advogado, ainda sem andamento.

O caso desencadeou a investigação interna, revelando 29 liberações irregulares de restrição em um curto período, com destaque para 27 delas associadas ao login do servidor, em um dia que ele não estava disponível para tal ação, indicando possíveis fraudes. Destas, 26 em um período de apenas uma hora.

A investigação apontou que Y. O. C. estaria usando o computador. Este servidor que fez a denúncia recordou que usou a senha dele pessoal neste computador para atender esta servidora, que gostaria de acompanhar os débitos de uma amiga.

No decorrer da investigação, a polícia percebeu que 25 baixas foram realizadas por David Hoffamam Chita, e uma por H. R.. Segundo a investigação, há fortes indícios da relação dos despachantes com as baixas indevidas, visto que, coincidentemente, os veículos tiveram documentos baixados no dia anterior.

Outras duas ocorrências de baixas indevidas foram anotadas em 15 de fevereiro, quando o servidor também acessou o computador da servidora, para ensinar uma função.

Cobrança de R$ 10 mil pela baixa

Um dos proprietários de veículos com restrições baixadas indevidamente recebeu ligação de um despachante de São Paulo, identificado como Charles, cobrando R$ 10 mil para regularização do veículo. Esse proprietário então contratou um advogado, que acionou o Detran para pedir a regularização, no dia 16 janeiro. Ocorre que, um dia após a retirada, no dia 16 de fevereiro, ele recebeu nova ligação, ameaçando retornar a cobrança, caso não recebesse os R$ 10 mil.

O despachante, que se identificou como Charles, disse que se não recebesse, não teria dinheiro para “pagar os caras”, o que no entendimento da polícia, indica presença de outros comparsas na efetivação da fraude. A polícia comparou as vozes e percebeu indícios robustos de que o autor da mensagem de voz seria David Chita.

“Assim, de maneira ainda mais clara, foram identificadas suspeitas de envolvimento do despachante David. Apenas pelo áudio constamos a existência de fortes indícios da participação de David nas baixas indevidas de restrições no sistema, na cobrança de valores de proprietários de veículos e pagamento de outros comparsas para a efetivação da fraude”, relatou a polícia.

Relacionamento afetivo

Segundo a investigação, havia relacionamento afetivo entre a servidora e Chita, bem como vantagens e valores pagos, com utilização de pessoas interpostas para o recebimento de transferências bancárias.  A amiga da servidora, que ela teria feito consulta veicular, entregou o relacionamento dos dois, mais tarde comprovado pro fotos de WhatsApp.

A amiga, inclusive, confidencia como a servidora estaria sendo pressionada por Chita para conseguir um acesso. Ela chegou a gravar ele com outra pessoa no telefone, alegando ter perdido R$ 100 mil.

Segundo a amiga, a servidora ganhou vários presentes, incluindo iphone 15 Pro Max, entregue no Detran, ar-condicionado, televisão, anel, ursos etc.  Esta amiga, inclusive, emprestou a conta para que a servidora recebesse valores em pix, sendo três, em um total de R$ 7,8 mil, em nome do enteado de David Chita.  

Durante as investidas, a servidora e também amante, tentou diversos acessos e inclusive usou, indevidamente, senha de delegados.

David Chita e outros crimes

A polícia destacou o envolvimento pretérito de David Cloky com outras fraudes no DETRAN. Inclusive, a fraude que é apurada no presente procedimento tem como origem a repressão de fraude vultuosa, que envolveu mais de 2000 veículos, de acordo com a COTRA, relacionada a regularização indevida de caminhões com quatro eixos, antes da regulamentação.

As fraudes apuradas no presente procedimento consistem em um aprimoramento da fraude pelos despachantes e servidores do DETRAN. “Não satisfeitos em emitir o documento fraudulentamente na origem, com a repressão e inclusão das restrições, os criminosos especializaram-se e agora estão obtendo lucro através da retirada indevida das restrições”, denunciou.

Nas investigações iniciais, já há indícios da participação de David, na emissão fraudulenta dos documentos. Essa informação foi destacada no relatório da COTRA que apontou que David teria sido responsável pela emissão da guia de pelo menos 5 dos veículos envolvidos no esquema. Esse fato encontra-se em investigação na 2ª Delegacia de Ponta Porã. Nos autos dessa investigação, David foi alvo de medida cautelar de busca e apreensão, conforme consta nos autos 0000430-79.2023.8.12.0019. Essas apurações indicam o profundo envolvimento de David em fraudes relacionadas ao DETRAN, com a participação direta de servidores. E esse envolvimento não é recente.

O investigado consta como réu em duas ações penais, denunciado justamente pelo crime de inserção de informações falsas nos sistemas do DETRAN (art. 313-A do Código Penal), com a participação de servidores do órgão, em processos tramitam sob os números 0045516-40.2017.8.12.0001 33.2015.8.12.0001. e 0013414.

“Dessa maneira, é evidente que as fraudes são a própria essência das atuações de David. Muito mais do que apenas reiterar na conduta delitiva, mesmo respondendo a ações penais, sofrendo medidas cautelares, o investigado continua a se aperfeiçoar e a lucrar em cima dos esquemas ilícitos”, diz a denúncia.David Hoffamam  também foi envolvido  em processo na 4ª Vara Criminal de Campo Grande, sobre suposto roubo de R$ 300 mil, em 27 de novembro de 2017. Ele seria um dos intermediadores do suposto roubo. Segundo denúncia do Ministério Público, o dinheiro seria usado para comprar o silêncio do corretor de gado José Ricargo Guitti Guímaro, o “Polaco”, que na época, segundo MPE, ameaçava fazer delação premiada para entregar o esquema envolvendo políticos e empresários, sobre propina da JBS, na Operação Vostok.


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